Gastronomia por Roberta Sudbrack
22/06/2007 ..
Aquelas coisas que só universo pode prever...
Resolvi viajar no meu aniversário. Tudo bem até aí. A questão é que tudo o que envolve tráfego aéreo hoje em dia pode se tornar um transtorno. Nossos sonhos hoje em dia estão em zona de turbulência!
Bem, isso se o universo não resolver conspirar a seu favor. No meu caso, parece que ele estava de muito bom humor e, ignorando o serviço de bordo – que depois do advento barrinhas de cereais, parece que ficou pior no mundo inteiro –, tudo correu como num conto de fadas. Nada de atrasos, nem na ida, nem na volta. Nada de nuvens carregadas, pousos suaves, daqueles que lembram os velhos e saudosos pilotos da Varig!
Estive em Buenos Aires, cidade que eu adoro, principalmente no inverno. Esquecendo o fato de que sou gremista e de que fui parar na boca do “Boca Juniors” em véspera de decisão! Decisão muito acertada a minha. Comi muito doce de leite – desde as primeiras horas da manhã – alfajores e carnes simples e maravilhosas. Para completar me hospedei num hotel de sonhos. Sonhos sem turbulência alguma, diga-se passagem! O Hotel Faena (www.faenahotelanduniverse.com), projeto do brilhante Philippe Starck (http://www.philippe-starck.com/), não é um lugar para simplesmente se
“acomodar”, é literalmente um lugar para se “estar”! Como eles mesmos dizem: um lugar de experiências. Inesquecíveis, eu diria.
Visitei lugares interessantes, alguns que seguem aquele preceito infeliz da gastronomia moderna, onde o ambiente está acima de qualquer coisa, inclusive da comida! Nesses, eu não voltaria. È o caso do Sucre (http://www.sucrerestaurant.com.ar),
restaurante badaladíssimo de Buenos Aires, com décor incrível, fora de série mesmo. O problema é que nesses lugares, parece que tudo e todos se comportam como as paredes. Então, dependendo do tom que o arquiteto escolheu, imagina o que pode te acontecer! Quanto à comida, eu diria, se me permitem, plagiando Pierre Troisgros: “A idade me faz gostar de coisas mais concretas”. E já que a minha idade também aumentou...assino embaixo!
Já o Uniarte (http://www.baruriarte.com.ar), que é do mesmo grupo do Sucre, foi uma gratíssima surpresa. Ambiente bacana, décor moderno, Chef mulher e a comida – que é o que importa! - de primeiríssima! Recomendo e voltaria voando – se assim os controladores de vôo permitissem!
Outros são imortais, e não podem faltar em viagem alguma, como o Café Tortoni (http://www.cafetortoni.com.ar), palco de grandes encontros portenhos, e que, como o Café Deux Magots em Paris, não envelhecem. E se envelhecem, fazem isso de uma maneira tão elegante, que parecem cada vez melhor. Como um bom papo na cozinha às 5 da tarde com a minha avó, um café fresquinho e um pedaço de bolo. Bolo de nada, bolo de bolo!
Coisas simples, que só o universo pode prever e promover. Resta a nós mortais: viver!
Até!
21/06/2007 ..
Cinema com a equipe
Promessa cumprida! Prometi para minha equipe que iríamos todos juntos ao cinema assistir ao filme da Disney Ratatouille quando ele fosse lançado. Hoje fechamos a casinha no horário do almoço, para uma manutenção de rotina, e toda a equipe foi ao cinema às 10h da manhã! Fui convidada a participar de uma exibição de pré-estréia para profissionais da área e fiz uma única exigência: levar toda a minha equipe.
O que pareceu a princípio inusitado se transformou em cena de cinema! Toda a fileira do meio na sala de exibição ocupada pela equipe Sudbrack. Antes de começar a sessão todos procuravam por balinhas, mas aparentemente ninguém havia pensado nisso. Como Chef é Chef...eu pensei! Dadinhos Diziole e jujubas foram divididas e pudemos desfrutar tranqüilamente das travessuras do ratinho cozinheiro devidamente abastecidos.
O filme é delicioso, o roteiro cuidadoso e os detalhes culinários levados a sério. Durante a sessão foi gostoso ouvir as gargalhadas de cada um, quando o assunto tocava de alguma maneira a sua área de trabalho. Os garçons se cutucavam e sorriam durante as cenas que se passavam no salão. O pessoal da cozinha gargalhava com as peripécias dos cozinheiros e os malabarismos gastronômicos.
Foi uma manhã inusitada e deliciosa, digna de um conto de fadas diferente, onde o príncipe é o cozinheiro e a moral da história é o meu assunto preferido! Mas não vou bancar aquele garotinho da propaganda que passava na fila da bilheteria dizendo: o mocinho morre no final... Vale a pena assistir a essa fábula gastronômica num domingo à tarde com muita pipoca e chocolate no colo!
Até!
19/06/2007 ..
Espumas e Ipods...
A gente já fala sobre a banalização da cultura gastronômica há bastante tempo aqui nessa cozinha. Falamos sobre isso e sobre a nossa indignação com a desconstrução, seja lá o que isso quer dizer! Confesso que ainda não consegui entender. O mundo já passou por tantas guerras e países, culturas e povos buscaram na tradição a força para reconstruir, progredir e prosseguir. Reinventaram maneiras de restabelecer a conexão com o mundo moderno sem abrir mão da sua história, das suas raízes, dos seus sabores.
Meu restaurante, num certo dia, foi considerado contemporâneo. Alguém decidiu assim e pronto. Então lá estava eu de posse dessa informação e sem saber o que fazer com ela. Quase entrei em crise. Ficava pensando, cada vez que executava uma das minhas receitas - que são modernas sim, mas extremamente clássicas na essência e na filosofia – em como é que eu ia encarar essa qualificação e me manter coerente a ela? Nada mais desconfortável para mim do que não ser coerente comigo mesma.
Será que teria que comprar pratos quadrados? Eu detesto pratos quadrados! Teria que usar sifão? Mas eu não sirvo chocolate quente! E a única maneira que considero aceitável, o uso do sifão na cozinha (dos outros!), é para fazer exatamente o que ele se propõe: chantilly! Nem assim eu estaria livre da crise, porque na minha cozinha se bate chantilly na mão! Teria então que usar mais reduções, mais xaropes, introduzir espumas? Desconstruir um peixe fresco até transformá-lo em alguma coisa, que algum dia lembrou um peixe fresco?
“Não!”, gritei, quase que acordando de um pesadelo em plena cozinha! Meus cozinheiros me olharam assustados e eu disse: “Tudo bem! Podemos até ser um restaurante contemporâneo se não tem outro jeito, mas seremos o contemporâneo mais clássico do mundo!”.
Lembro-me de que quando toda essa maluquice de desconstrução começou a tomar conta do vocabulário gastronômico, eu fui convidada para dar a minha opinião sobre essa tendência numa revista importante de circulação nacional. Eu não era tão conhecida, ou pelo menos as minhas idéias e a minha filosofia de trabalho não eram assim tão conhecidas. Convinha então não ser polêmica, já que algumas cozinhas Brasil a fora estavam entrando na era da espuma, dos sifões, das poeiras...
Mas não consegui, falei o que pensava e inevitavelmente fiquei com uma sensação deliciosa de alívio, mesmo sabendo que poderia estar incitando a ira dos moderninhos. Felicidade a minha quando li a matéria e vi o seguinte placar: Claude Troisgros e Roberta Sudbrack contra o resto do mundo! Naquela época eu não conhecia bem o Claude, só o admirava, mas estar ao lado dele naquele confronto me fez sentir poderosa, coerente, feliz e mais convicta do que nunca das minhas preferências.
Outro dia li um artigo antológico do Rogério Fasano, outra figura que eu admiro profundamente, sobre a sua visita a um templo da desconstrução. Além de todos os absurdos já contidos nesse tipo de gastronomia - se é que se deve qualificar assim – ele conta que agora para se comer algum tipo de espuma marinha, ou coisa parecida, é preciso usar um ipod que reproduz o barulho do mar! Ora bolas, nem as espumas se garantem mais? È preciso induzir o sujeito a pensar que está no mar, na tentativa de fazê-lo captar a idéia central, já que o gosto não é mais capaz?
Veja bem, nem o meu computador aceita a palavra desconstruir! Cada vez que eu a digito, ele chama a minha atenção! Moral da história, além de continuar me sentindo coerente e feliz com as minhas convicções, no meu vocabulário e no dicionário do meu computador a palavra construir é que tem vez. É uma palavra, positiva, antenada e mais condizente com as expectativas do mundo moderno e com as minhas.
Até!
2000-2006 Globo.com. Todos os direitos reservados.